(114)

eu tinha tudo sobre controle quando você
apareceu e remexeu minhas certezas
elas que com uma perna só se equilibravam
como pássaros em fios elétricos procurando liberdade

o engraçado é que você trouxe outras conclusões
acompanhadas de dúvidas, s
e juntaram as existentes

ontem quando senti sua falta em um dia
monótono e delicioso, entendi que era na mudança o nosso lugar

e depois de alguns meses contornando as
incertezas, trouxe-as para perto e me envolvi
com um cobertor imenso e macio do agora

(104)
hoje foi um dia perdido em mim
relembrei como é estar
sem caminho
trouxe o acaso
me perdi no tempo e no espaço
do corpo

relógio carrego o de pulso
e sem dizer a ti qual era o problema
me substitui
conheci outra versão de alguém que não sou
e fui

(98)
eu te dei tudo o que eu tinha
do coração as intimidades
nada mudou ou sucedeu

esperei quase dois anos pela reciprocidade
que não chegou, só bateu à porta
e bem poderia ser engano

você queria metade do que eu desejava
eu te dei tudo o que tinha

aonde encontrar o tanto que eu quero?
como receber sem perder?

nossos mundos diferentes se cruzaram
era caminho, direção e, de repente, um desvio
descobri: o amor é labirinto que não se basta

sem mágoa ou raiva, eu sigo
reconstruir, começar do zero
com a bagagem leve

os aprendizados nunca pesam

(97)
ontem escrevi para você sem previsão
recebi dualidades
paradoxos sentimentais

não quero nós novamente
mas existem sentimentos que mesmo modificados
permanecem; a sensação, o amortecimento
a prótese, o molde

nada disso será reutilizado
Como se fossem exposições em museus

revisitá-las não as tornam minhas

(92)
olhares que pesam, inquietam
tornaram as horas mais lentas
e a introversão acentuada
(com pontos de exclamação)
fico dentro de mim 
sem querer sair

(89)
quando você percebe que entrega mais do que recebe
a conta não bate, simples matemática
afundas em alto mar, antes fosse para se afogar
boia, boia, sem parar
enruga até mofar
o que era seu, se vai, fica para trás
não dá pé, não há ar, não se vive mais
o amor é sentimento vasto
é estar em alto mar?

(68)
eu poderia falar isso: ah, não deu porque a gente é muito diferente. mas eu queria mesmo falar de como é sentar de frente pra você na mesa e ficar sentindo seus olhos passeando por mim até eu ficar tímida. queria dizer que sinto prazer. prazer em te olhar e te deixar sem graça, em ouvir você cantarolando quando animada, em perceber seus olhos revirarem depois de uma brincadeira minha, sem graça. prazer em saber que te afeto. em saber que você também não sai ilesa de tudo isso. eu te quero feliz e perto, mas não deu porque você não desceu do muro. e olha que esse muro nem era eu. porque eu também estava em cima, te chamando pra descer comigo e você insistiu em ficar. desci, pulei, a queda foi brusca. não achei que me sentiria tão sozinha rápido assim, só, novamente. aqui normalmente entra a poesia: você não quer porque não se permite. porque tem medo. porque se sabota. por que não confia mim. ou em si? não sei e não importa. eu te quero livre e saudável, ficar presa aí em cima é limitante, é enganoso. mas quando você me deixa lá embaixo esperando, e convida alguém pra subir e sentar contigo, com a desculpa de não saber as coisas que a gente é, alguma parte da minha empatia se quebra. foi lá debaixo que eu encontrei meu limite. você só sairia se eu quebrasse o muro. e eu não quero quebrar nada nem ninguém.

(77)
nunca fui uma pessoa confiante
principalmente com as palavras
gaguejava ao falar, o calor subia (ainda sobe) pelo rosto
e não era de prazer

aprendi a ser cada vez mais quieta
sentimentos moldados em palavras não ditas
até conhecer a escrita, minha companheira mais fiel, sim
e as manias que criamos ao longo do tempo 
[...]

eu faço listas que registram momentos
escrevo em nota antes de digitar mensagens importantes
eu rascunho as palavras mais mansas para dizer
não gostei
não quero
não senti

eu transcrevi nosso primeiro diálogo porque, sim
é através da escrita que compreendo a realidade
e podem me chamar de lerda por instantaneamente
não compreender conversas ou discussões

podem me chamar de insensível por não responder,
escolher o silêncio
mas a real é que teu tempo corre em segundos, milésimos
o meu tempo é medido em palavras

eu sei o dia que eu disse que amo
eu sei as coisas que eu gosto em ti
eu sei o que me irrita
eu sei o que eu sou

eu sei, pois registro em palavras
muitas vezes não ditas

porém, eternizadas

(69)
eu tive medo quando te vi pela primeira vez no seu sofá
e ouvi sobre a sua confusão

foi como um flashback de filme norte-americano
um déjà-vu dos festivais de cinemas franceses

e pensei “de novo não” 
achei que tivesse mastigado e engolido o medo, aí
eu vomitei bem no seu sofá, segundos antes de transparecer confiança
a qual, na verdade, havia escapado corpo à fora e dobrado a esquina da sua casa


como se você pudesse ouvir meu estomago gritar
[e você pode, ele fala tão alto]
eu não quero restos, nada pela metade
eu não quero gorfar os mesmos medos e traumas
 novamente

(65)
eu já fui o lugar mais acolhedor 
que a solidão achou para se alojar
onde os pensamentos se dissolviam 

e sair de casa era uma batalha

agora,
mais calmo e tranquilo
quem chega, planta

alguns, colhem

solidão é igual poesia: julgam desnecessária mas, na real, te ensina como colher tudo o que plantaram em você


(64)
estou sempre trocando minhas certezas

por uns versos e novas experiências
poemas feios os meus
poemas feios e agora incertos

o epílogo sequer existe
poesia não possui
possuir é coisa ruim
a gente pode é pertencer

se pertencer ou pertencer a gente nenhuma

(50)
um poema é como uma plantinha que se coloca no mundo. é uma vida, que ao longo do tempo cresce, floresce, te ajuda a respirar melhor, traz paz e conexão interior. por um mundo com mais plantinhas e poemas.


(38)
tô tentando entender aonde você me pegou
tenho uma queda pela literatura, fraqueza pelas palavras;
pelas conversas?

você não sabe, eu nem te conheço
mas minha mente diz que sim
estou tentando evitar
juro

cadê aquela frase pra me fazer ir embora?
você pede paciência e eu tenho pra dar
cuidado e carinho


eu não vou me aproximar mais

se tens pra quem dizer as palavras que fazem ficar
eu já vou
não me manda esperar


(36)
quando vejo que a poesia se comporta de forma metafórica e paradoxal
esta me liberta, ao mesmo tempo que me arrasta para um caos interno

devaneios, sentimentos silenciados
[...]

descubro o que mais quero:
um copo de café e boa companhia
para escrever meus inversos
e guardar meus versos
numa troca de olhares
[aqueles que nos fazem ser poesia não nos resumem num papel qualquer]


(24)
se o egoísmo perdeu-se
não encontrou espaço em quem sou;
devo a você
por preencher grande parte de mim
— irmã

(118)
dizer que o céu está para peixes
que as estrelas mergulham na escuridão
antecipar a maré
viajar sozinha
correr o risco de abraçar a solidão
acolher a sensação
à vista, naus com til
navegar em abstenção 

(115)
talvez o seu amor seja o mais
maduro até hoje
não tem a ver com idade
nem comparação

te amar é tão leve
simples, fácil
te amo sem pensar 
duas vezes

desconfio da nossa relação
te coloco em teste sem querer
Não quero palavras atravessadas
nem gritos pela casa
eu prefiro atitudes tranquilas

sem te mostrar outro tom de voz
me questiono sobre o certo e o errado

o lado e o avesso
o nosso e o nada

e quando em silêncio
reviro a madrugada
sem você ao lado
não pago nem para ver

(29)
fez moradia aqui
faz duas décadas
eu cheguei primeiro
(em mim, em casa)
mas resido em você que é lar
— irmã

(63)
eu me lembro de quando deixei você roer a minha sanidade em nome do amor
você me machucava e eu colocava o nome daquilo de amor 
estava tão longe de ser...
éramos afeto, apenas 


eu te romantizei demais 
afinal, você só tinha cuidado em tocar a carcaça 
porque de resto, você nem notou


nunca tocou minhas entranhas
nunca me leu de verdade
só achou a capa bonita, me colocou na estante
como quem coleciona obras literárias sem nem ler o prefácio

e hoje me olho e vejo o quanto fui ingênua 
fui eu que senti, em cada toque;
o amor estava em mim 

entendi a efemeridade que você me proporcionava
eu achava que era suficiente

é, nunca fui boa nessa coisa de insistir
sempre me achei incapaz de merecer qualquer coisa
[principalmente amor]


e você aparece e volta quando acha que é conveniente
mas o amor não é assim
e finalmente eu entendi que o amor nunca se foi

ele sou eu

(61)

SOBRE PENSAR, SENTIR E AGIR

Alguns anos atrás, um acidente – sem mortes ou danos maiores – me fez refletir sobre o verbo agir. O que é agir? Quais as consequências dos nossos atos sobre nós mesmos e sobre os outros a nossa volta? Cheguei a uma conclusão parcial. Em termos bem simples, agir é a manifestação do que pensamos e do que sentimos, ou seja, a mistura da nossa razão e da nossa emoção. Assim, quando dominamos nossos pensamentos e nossos sentimentos agimos de forma equilibrada. Uso aqui o significado de dominar não no sentido de conquistar, domar... como se doma um animal. Pensar e sentir são verbos de nascença, você não consegue conquistar o que é seu por essência. A coisa conquistada é aquela que não nos pertence, que por algum motivo de ignorância - ou não - achamos que tem de ser seu, ou meu, ou nosso. O animal é domado (domesticado) e sobre ele exercemos a força, seja ela física, psicologia, emocional... O significado de dominar que proponho aqui é o de entendimento. Dominar através do conhecimento.
E o que é mais valioso do que o autoconhecimento? Quando entendemos, de fato, o que sentimos e pensamos, aceitamos; porque aceitar é aprender a reconhecer a nossa própria força, e consequentemente, nossa própria fraqueza, nossos próprios limites. Quando você reconhece que não pode fazer nada sobre determinado assunto, que não tem controle sobre alguma coisa, você aceita. Aceitar nada mais é do que abraçar a sua vulnerabilidade.  Voltemos à ação equilibrada. Esta é coerente ao que sentes e ao que pensas, é a balança libriana, o meio termo. Ações equilibradas geram consequências equilibradas e o universo, ultimamente, grita pelo equilíbrio.
Então posso dizer assim:

Na ação equilibrada você não ignora o que sentes

você não ignora o que pensas
você não ignora como ages.



Não ignorar é iluminar-se, sair do escuro, gerar consciência. Se soubermos por que pensamos a, porque sentimos b e porque agimos c, criamos responsabilidade pelos nossos atos. Responsabilidade emocional. O que é tomar consciência se não conhecer aquilo que você decidiu não ignorar? Mais uma vez esbarramos na importância do autoconhecimento. Não ignorar é aprender sobre responsabilidade. Sem responsabilidade machucamos aos outros e a nós mesmos. Às vezes a verdade pode ser pior do que Friends dublado, mas, o que vai nos fazer progredir é a nossa capacidade de se importar ou não com o que o outro sente. Se a gente alimenta aquilo que não quer que cresça – seja com água, carinho ou ódio – logo percebemos o valor que temos. Não digo aqui que atingir o equilíbrio é coisa fácil, a gente fala – e principalmente escreve – sobre aquilo que queremos entender ou dominar; e em questão de paradoxos (pensar e sentir) e antíteses (razão e emoção), quem escreve finge bem. Termino com um verso do Livro sobre nada, de Manuel de Barros, pra quem não sabe entendermos melhor:

Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo)

(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso 

porque não encontrava um título para os seus poemas.
Um título que harmonizasse os seus conflitos.
Até que 
apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)

As antíteses congraçam.

(120)

amar é cair aos pedaços e ressurgir
sem medo de ser ou estar

(119) 
as flores crescem com a sua presença
o sol não é mais o mesmo desde que você chegou
nem a escrita ou a escritora
o poema não aparece porque é de tristeza que o poeta vive

aquela música que era triste se regravou
a estação fria, amenizou
se for para falar de vida

eternidade


(113)
sofrer por amor é voltar aos poemas nunca vividos

(112)
ontem eu queria te tirar da cama
e você só sabia dançar por cima das roupas
deitada, rolando, trocando as palavras

me coloquei na sua posição para garantir um olhar
desvios feitos em pequenos segundos
a timidez me mostrou

e enquanto eu te abraçava para te segurar
seu braço rodou no meu pescoço e caiu

a cama segurou o que era importante
cuidado e leveza nos aguentou

(110)
escrevo quando estou triste
triste não estou
estou vivendo um turbilhão de sensações
que deveriam ter seu nome

sua cara, sua voz, sua silhueta
seu corpo, seu cheiro, seu sorriso
seus lábios nos meus

sem perceber, você chegou
e agora?
cartas de amor

(107)
seus olhos invadem meu corpo
vejo, não sinto a timidez
avanço no desejo
atua na indiferença
apago o que sou
sem tempo de voltar

(106)
madrugada passada
músicas antigas vieram me assombrar
reconectar nostalgias
sensações adormecidas

coloquei o medo como capa da playlist
e no repeat, ele toca
sem previsão para acabar

(105)
fazem dias que estou tentando ser alguém
 imobilizada de corpo e alma
voltei ao passado, doze anos atrás
tenho medo de me reconhecer
naquela antiga versão

outra vida, outros tempos, outro eu
por um mês inteiro, viajei no tempo
paralisei no espaço

estou tentando voltar ao presente
até agora sem sucesso
permaneço no passado

(103)
eu criei vários poemas mas nenhum é forte o suficiente para ultrapassar a poesia que você cria em mim 
saber transmitir é diferente de sentir
eu não sinto como antes, sinto mais, sinto muito

a transformação, a mudança, a andança, a vantagem
você corre quilômetros à minha frente
meu sentimento atravessa algumas dimensões do seu ser

quando acho que estou chegando perto, é apenas corpo
de alma eu já te alcancei desde aquele dia que você não lembra

talvez agora, com milhares de pés entre nós, nos encontremos nas vontades, sonhos ou viagens
se de alma, corpo, pensamento, ainda não sei
em todos os sentidos, longe do destino 

te encontro e amo.

(87)
detalhes: tudo o que acontece quando estás desprevenido

a mordida de um pernilongo
uma chuva passageira
a quebra de uma xícara
o presente sem embrulho
a campainha às quartas-feiras
uma carta de amor
o beijo de bom dia
a rua esburacada
a vida após a morte

(86)
Semana passada estava eu assistindo Glee (sim, a série musical), um episódio inteiramente com repertório do Billy Joel. Ele tem uma música que fala sobre honestidade e como é difícil encontra-la. "Honestidade é uma palavra tão solitária, honestidade é dificilmente ouvida." É isso que ele escreve. No amor, se você procura carinho, um rosto bonito ou alguém que te faça promessas, facilmente terá. No entanto, se procurar verdade e honestidade, talvez se sinta cego ou incapaz, pois são difíceis de encontrar. A solidão está além da palavra. Normalmente os caminhos difíceis são os mais solitários. Mas, segundo Bukowski, existem coisas piores do que estar sozinho, e uma delas é descobrir tarde demais.

(78)
eu sempre dizia que estava fora das coisas principalmente porque se eu entrasse, se me deixassem entrar nos lugares e grupos e coisas, ia ser doloroso sair. sair por qualquer motivo. seja porque não me adaptei ou porque não se adaptaram a mim. mas eu aprendi o quão é bom fazer parte e se sentir aceita, aprendi que fazer parte faz parte de mim. mesmo assim eu ainda tenho medo. então eu digo que tô longe, mas na verdade tô bem perto.

(72)
ando distante da escrita
quase rastejando até ela
as vezes, me fecho dentro 
de mim, não sei a razão

quando parece que estou mais perdida
me encontro aqui, bem perto
quieta para invisível permanecer

e quem sabe, um dia, chegar 
nos versos internos que não

decifrados, existem em mim


(55)
quando vocês leem alguém vocês realmente se despem de si para enxergar o outro? 
eu vejo tanta gente romantizando textos em que a pessoa só sabia lidar com aquela dor escrevendo e muitas vezes não é bonito. dói escrever. é exorcizar tudo que aperta o peito e eternizar aquela dor ali. tenham respeito com a escrita alheia. é como se a gente tirasse a roupa, com todas as inseguranças e traumas ali nas palavras.
olhem com cuidado o espaço do outro.


(30)
encontrei meu limite
é triste perceber que o amor
por si só
ele não basta
precisa-se [querer a sintonia]
estar no mesmo instante

o tempo torna-se empecilho
mais uma vez
mais uma vez
é temporal

(117)

maio chegou e não escrevo
são noções de linguística
clássicos questionamentos
a língua portuguesa permeando 10 anos
no melhor dos sonhos, Baudelaire
poética entre Aristóteles
a literatura na matéria
no coração
não é questão de física


(102
)
se escrevo agora é porque tenho algo a oferecer
não para você, para mim
dizer sem muito expressar

quem me conhece, sabe
sinto e vejo e ouço
sentidos integrais

(100)
eu dizia que não voltava atrás
sendo sincera, sem pestanejar
nada é sempre igual
afirmar o presente não é negar
um futuro diferente

ainda bem

sem a língua mordida e as mudanças
não seríamos nada
agora rimo em solidão
sem me sentir só


(99
)
não sei bem o que falar
o que dizer?
alguns segredos não deveriam ser compartilhados
trouxeram a mim uma questão, tive que me perguntar o motivo sem saber a história

nem começo, nem fim
nem antes, nem depois

apenas um futuro que não corresponde a mim
pertence ao que eu sei na gaveta isolada do espaço

escondida em confusões inexistentes
sou confidencias e desabafos puros
não me envolvo em relações alheias

remova minha verdade e a confiança se perderá
sem palavras, prefiro
não comentar

(96)
egos sobre egos
vidas sobre vidas
o caos se instala e não fala
com ninguém. a língua falada
não é entendida; consultas unilaterais

não ouve, nem sente
não houve cuidado
não pensam em ti
só querem saber de se garantir

a falsa ajuda vira rotina
acreditam na vida?

(94)
a escrita sempre me leva para essa estrada curta
me revela
me coloca nos eixos

foi eu mesma quem demorou para perceber
mais que o meio, ela é o centro
presente, futuro

ela sou eu

(93)
Hoje eu quero escrever sobre como o tempo consumiu meu tempo. Colocou minhas vivencias à sua disposição sem perguntar, sem pedir permissão. Me convenci sobre um futuro que agora vejo não ser meu. Eu não quero. Esse papo é do meu antigo "eu". O que eu quero foi construído ao longo desses anos; escondido em falsos desejos e conquistas. Eu quero mesmo é escrever, eu quero contar histórias. Eu quero ser eu, eu quero viver o futuro e presente sem medo de mudar o caminho.

(85)
Adquiri o hábito de ler pela manhã e essa é a única atividade, até hoje, que conseguiu fazer com que eu acorde cedo por vontade própria, de forma rotineira. Tentei programas matinas de rádio ou TV, exercícios físicos - em um sentido bem frouxo da palavra, pois nunca consegui realmente acordar cedo para "caminhar ou fazer ioga”. Meu corpo e minha cabeça dizem: “dorme mais um pouquinho, você se exercita depois”. Mas com a leitura é diferente. A luz do sol entra pela janela da sala ou na área da cozinha e só aparece em horário específico. A combinação é perfeita: o cheiro do café, alimentos matinais, o silencio, a calma, o sol da manhã. E eu fico nesse exercício agradável de ler, saborear o café; sentindo a luz bater no livro. São as sensações mais simples e valiosas que tenho nos meus dias. Depois de tantos e tantos meses da rotina quarentenária, descobri o que faltava para começar o dia bem - e cedo.

É claro que o livro que me motivou a isso chega ao fim, e diz assim:

“Viver, não existe nisso nenhuma felicidade. Viver: carregar pelo mundo seu eu doloroso. Mas ser, ser é felicidade. Ser: transformar-se em fonte, bacia de pedra na qual o universo cai como uma chuva morna.” (A Imortalidade, Milan Kundera)

(95)
Escrevo a tanto tempo de maneira torta
achava que era suficiente, pois escrevia
mas não, eu não quero só rascunhar
eu quero escrever para viver

(84)
eu não saio de casa sem um livro no bolso ou na mochila. é com um desses que eu me sinto confortável em qualquer lugar. ele está sempre lá pra me acompanhar e acolher. não preciso de muito, eu me encontro quando leio. muita gente não entende que o teletransporte já existe tem muitos anos - desde que você tenha um livro consigo.

(74)
cheguei em uma mesa redonda
permaneci de pé, sem cadeira
roda cabe mais um
não tem começo, nem fim

não me quiseram conhecer
sendo eu a timidez
um paradoxo gigante
inversão de formas geométricas 

não era círculo, nem circunferência
não era quadrado, nem triângulo
nem aberto, nem fechado
era um amontoado

fiquei em pé
em pé 
até cansar
eu sentei no chão
sem enxergar 

ninguém ao redor da roda

não era roda

 buraco negro

(56)
acho que o amor vem do autoconhecimento. quando você começa a se conhecer e entender o que te faz bem, do que tens medo, o que te traz calma e paz interior, o que realmente você é em seu íntimo mais particular… você começa a valorizar quem te traz esses sentimentos e coloca afeto nessas pessoas. estas, apertam o gatilho que faz, você mesmo, manifestar coisas boas [ações e sensações], e assim você passa a amá-las; estas resgatam partes ocultas mergulhadas em seu interior que você ainda não sabia como trazer para superfície. tu ama aqueles que te fazem ser você mesmo, a tua versão mais espontânea, a tua versão mais “tua”. a versão existente quando estas a sós consigo mesmo. é amor aquilo que te toca intimamente. é amor aquilo que sentes intrinsecamente. 

(51)
leia sobre os outros se for o que te faz boiar, mas permanecerá estática. para nadar a favor da maré, escreva você mesma sobre frustrações e sofrimentos próprios. inunde-se estudando sobre suas realizações pessoais, sua autoestima, seus sentimentos. afogarás se não praticar o autoconhecimento.



(41)
eu sou ótima com as palavras quando estas
não precisam sair pela minha boca

não se sinta privilegiada
se você é a matéria-prima
eu sou o produto final
escrevo versos para mim
para minhas vivências entender

[para você, muito menos que minhas palavras faladas]


(39)
quando eu penso em você
questiono qual o significado da eternidade
fico mais tempo em transportes públicos do que com você
transportes públicos parecem eternos

porque amamos instantes?
porque amamos aquilo que não é eterno?

os cinco sentidos
deles o mais drástico
o físico, a pele, o tato
nós não temos isso

sinto sua falta ao mesmo tempo que
você está diariamente presente em mim
lembro que a eternidade está dentro de nós
eu e você

perdi as contas de quantas vezes me senti eterna
não ao seu lado
mas por você 

(35)
dedico estas palavras a mim
esse poema é uma prova
de que agora sou eu
inteiramente minha


(1)
em meus seios, anseios
pressinto que roubarás
parte de mim ao sair

(116)

amanhã, muda
sem querer mudar
vejo a lua desaparecer
enquanto me molho
viajo, ela aparece
alterou a localização

(111)
do lado de fora tudo claro
dentro era escuridão
vieram me dizer
a vida são instantes de euforia
os dias são intensos
dormir demais é desperdício
cantar alto é um vício
vulnerável e colorida
me tirou da zona térrea
fim de tarde agitado, óleo e água
água e vinho
receitas improvisadas
sentimentos misturados
encontros alucinados
consideravelmente

insanas

(109)
você se desculpa por nada
                                        [ou tudo
eu agradeço sua presença
você agita meus dias
alegra minhas tardes
ameniza ansiedades

quero que você fique
por um ou dois dias
por mais 21 dias

e enquanto eu te olhar
não esqueça de ficar

(108)
gosto do tempo com você
seja chuva, seja sol
gosto do seu carinho matinal
de beijar seu corpo
de te olhar nos olhos

(101)
até pensei em te escrever
mas nada do que eu sou pertence a você
essas palavras já não vão em vão
vão e vão
não sei dizer
o que sou não é o que pensei
senti

(91)
eu achava que amar era ceder - ainda acredito nisso
doava o que não tinha, ficava negativa
longe de mim ser assim
eu queria amar
me doar por inteiro sem me esgotar

(90)
você tem medo de morrer?
vida fugaz, passa sem explicação
nem terra, nem chão, céu ou inferno

existir é mais do que sonhar
ser, estar, conquistar

o que é seu em vida, é seu na morte?
vale do que?
cuide de você

ontem foi passageiro, a vida vale mais do que dinheiro
fale, sinta ,seja
deixe de esperar

o tempo não guarda
aguarda
ele voa sem você

(82)
a gente andou de carro pela noite numa escuridão sem fim; depois de um dia que pareceu durar uma semana. a mão infeccionada da mordida de gato, a pré viagem da sua casa até a vila, assim como a volta à procura de amigos verdes. o hospital, em seguida, a farmácia, a arrumação de malas, a espera com a dog do lado de fora do supermercado. dentro do carro coube todas as compras, animais, pessoas, expectativas. foi como chegar em um universo paralelo. os jogos, o cheiro do café, as refeições compartilhadas, o café da manhã na grama antes da garoa, o dvd na televisão de tubo com um filme dublado, a cachorra correndo pela grama, a chuva, o sol, as companhias. o botijão de gás trocado. a gente deitadas na cama, as batidas na porta, as risadas sem nome, o documentário mal assistido, as aulas de fotografia, as regras do buraco, as conversas na varanda, um pôr do sol de fevereiro. voltamos sem querer chegar.

hoje eu vou embora sem querer ir 
cinco meses depois
nada mudou além de nós

(88)
nada é bom todo dia, mas a vida toda é boa. não se apresse. deite no sol, demore, namore, repare no que gosta, e no que não gosta. seja, respire, ame, prossiga.

(83)
faz tempo que eu não escrevo e o tempo é uma coisa doida. quanto mais a gente tem, menos a gente usa. tem dias que parecem infinitos, tem dias que parecem noites, tem dias e dias; e tem dias que eu não escrevo. o que eu queria dizer eu nem sei, as novidades são essas: o BBB está na reta final, estou terminando dois cursos online, comecei a participar de uma pesquisa que realmente desenvolve minha (falta de) habilidade em interações sociais, estou terminando uma série que comecei em 2017 e tenho lido um livro por mês. sobre o futuro: incertezas. sobre o passado: aprendizados. sobre o agora: eu não sei. vivendo e escrevendo para ver no que é que dá.

(81)
escolhas, caminhos, vivencias
ciclos intermináveis chegam ao fim
recomeçar sem saber onde está o início
priorizar o que é seu
você


(80)
sei que as coisas vão 
é difícil conviver com a impermanência
acho que só vivo e talvez viver não seja o suficiente para ser inteira
é preciso deixar fluir, deixar ir e vir 
se tudo é fluxo e passageiro
porque me sinto presa em dias intermináveis?
eu já tenho a solidão
o universo tem espaços que não cabem pensamentos
cabe nós
não eu e você 
todos nós num inconstante infinito
constante infinito inconstante


(79)
eu quero continuar olhando pra você sabendo que as coisas mais bonitas estão caminhando entre nós e que posso segurar sua mão quando sentir vontade. eu quero continuar olhando pra você distraída, quando procuras alguma coisa na bolsa sempre bagunçada, quando mexes no celular que eu odeio, enquanto conversa com alguém ou quando penteia o cabelo.  

é que eu realmente gosto de te devorar com os olhos antes de tocar tua pele. quando eu tento mensurar a distância que separa meu corpo do seu, meu olhar busca refúgio na sua boca, repousando numa imensidão. e eu sinto. você sabe que eu sinto. e eu posso escrever bonito, eu posso te emprestar metáforas que soarão suaves e menos úmidas que a minha língua na tua virilha mas na real eu não poderia descrever o impacto que teu corpo causa no meu independente da distância.

talvez eu não seja boa em elogios, a timidez atravessa minhas palavras até nessa interação; mas eu gosto de como seu cérebro funciona. gosto de como nossos corpos se encaixam. gosto do seu jeito em me ter, gosto da sua compreensão, gosto da sua libido, gosto quando a gente deixa estar. deixa ser. gosto de ti.

(76)
por todas as coisas que não somos
somos tantas outras; você tem um
jeito de mostrar implicitamente que não
importa o quão fora você tenta ficar, tu não
queres estar tão fora assim. ironicamente
você está entre minhas paredes,
com a porta aberta, se recusando à sair.

(75)
Nos museus tem aquelas pessoas que olham e aquelas pessoas que veem. Acho que na vida é assim. É quando o Patrick diz “You see things. You keep quiet about them. You understand”


(73)
teus olhos de traços asiáticos
teu rosto sorrindo
o cheiro da pele
a cor da boca avermelhada 
e as curvas espalhadas pelo corpo 
e a voz cantando a gente junto
não sei como olhar pra você e não enxergar mudança
como se olhar pra você anulasse nossas desavenças 
como se o seu toque esquentasse cada parte minha
como se o tempo não parasse
 corre para alcançar a saudade
 a saudade não espera
não espera ninguém,
nem o tempo que em sua direção
corre

um segundo juntas é a eternidade

(71)
eu sei o quanto te quero por perto quando
 sinto sua falta em momentos simples e cotidianos,
seja lendo um livro, assistindo um filme,
quando vou na farmácia ou na padaria comprar pão

a gente não é fumante mas sai
3h da manhã procurando miojo

e eu sei que não sou ótima em expor o que sinto
e você, em acreditar... por isso escrevo
[talvez devesse escrever mais]
para tentar transmitir um pouquinho 

a felicidade que é estar
segurando sua mão enquanto a gente assiste
uma bobagem na TV; ou quando a gente capota 
no colchão da sala depois de uma taça de vinho

e eu queria que você entendesse que
o meio de transmitir meus sentimentos
o quanto eu me importo com a gente 

se dá através da arte, 

pelas playlists, pelos poemas cafonas, pelas cartinhas que escrevo,
pelo trecho de um livro, pelas gracinhas que eu falo só pra te fazer rir,
pela forma como eu te olho quando você está distraída 


e meu coração transborda e eu penso o quão sou apaixonada
por você, por como você me faz sentir com coisas consideradas simples
como uma mensagem de bom dia, ou um carinho na parte de trás da cabeça. 


tem coisas que não se descrevem, o quão abraçada eu me sinto
quando sou eu quem te abraço, quando eu te faço um carinho,
quando eu te beijo quase nunca afobada. 


você diz que nunca saberemos como é tocar ou beijar nós mesmas,
mas eu nem sei porque iria querer isso se posso sentir você em mim

incontáveis as vezes que fiz o caminho até sua casa,
todas eu sinto aquele frio na barriga
me pego ansiosa nos segundos de espera que
antecedem a Belly correndo até o portão,
                                                                   [você pegando ela no colo. 


foram poucas as vezes que 
te olhei nos olhos nesses momentos de chegada,
talvez por uma mania boba de timidez


 pelo fato de não saber como agir
com o turbilhão de sensações que 

você causa em mim assim que te vejo 

e eu queria que você sentisse 

o quanto eu venho te amando
em cada detalhe, em cada ação não dita.


(70)
sinto muito pelos meus medos
principalmente pelo medo de te fazer mergulhar
no caos que eu as vezes sou
eu não quero te assustar, meu bem,
minhas inseguranças são minhas
tem dias que tudo que sou é temporal
[e a gente gosta tanto do céu limpo,
desenhado com nuvens e a lua visível]
você não sabia das minhas bagagens quando me encontrou
e pouco a pouco vem derrubando o muro que eu criei
eu não sou forte como eu tento aparentar ser
tenho o meu lado frágil e inseguro
e medo de você encontra-lo
e não querer ficar



(67)
conversas de um hora, 
respostas sem perguntas
riso e choro
cães e gatos
historias sem direitos
caos e paz
vida e morte
perguntas sem respostas
dia e noite
sol e chuva
chegadas e partidas
e chuva 
é chuva
temporal



(66)
[ler ao som de Alone with Me by Vance Joy]
a poesia gosta mesmo é das insignificâncias da vida, feita pra falar das coisas simples, do nosso cotidiano; como o barulho que a máquina de café faz e o cheiro que invade a cozinha e o gosto que fica na boca é a boca que beija a sua e a gente fica que nem o gosto etc
você gosta de metáforas, eu de (literatura) escutar as suas porque na minha cabeça formam imagens das coisas ditas. ouço suas histórias e lembro do primeiro dia que nos encontramos que eu nem te olhei direito mas pensei que poderia passar horas te ouvindo falar sobre coisas simples como o céu e a lua e como a gente gosta da gente que de simples não tem nada, um paradoxo. o que seria de nós sem as figuras de linguagem?


(62)
eu gosto do seu cheiro impregnado em mim depois que nossos corpos se encaixam em meio a tantos abraços. a gente troca a noite pelo dia e vive a madrugada para discutir pensamentos ou assistir um filme pela metade. e eu sei que ta demorando e eu to gastando sua paciência, eu to presa dentro de mim “não é você, sou eu”, e realmente. mas eu gosto de te olhar e de quando você sai alisando cada curva minha e me desprende aos poucos e eu sinto e eu quero e eu olho pra você e converso com minhas paranoias e, sem querer, me fecho aos poucos novamente — pensamentos que paralisam.
eu gosto de assistir suas várias expressões enquanto me conta uma história sobre qualquer coisa e das suas pequenas mãos entrelaçadas nas minhas suadas mãos, num dia de semana qualquer ou num sábado de tarde ensolarada que a gente descobriu quando decidiu olhar o céu após três horas de cochilo da tarde.



(60)
a ultima coisa que você é são palavras, é o que eu diria
porque desde então eu venho tentando encontrar
coisas que eu possa dizer que você é
ou que causa no universo. eu sempre
volto e penso
você é um universo

e os caras vêm tentando falar disso desde
antes de Sócrates

eles não conseguiram
então eu paro aqui, admirando sem adjetivos a sua complexidade


(59)
eu deitei no seu peito entre a borda da tua blusa e sua pele quente
senti vida debaixo dos tecidos nossos
e eu tentei te explicar mas não era uma coisa que sairia por inteiro
então eu pensei em te escrever um poema e hesitei
você faz origami com minhas palavras porque elas são livres
para se transformarem no leitor
e foi a primeira vez que você me leu
eu queria ter te falado isso mas eu não teria coragem
porque não caberia
então eu deitei o rosto na fresta da sua blusa e fiquei sentindo a vida inteira que cabia ali - no silêncio das poucas palavras que pronunciei e desejando não voltar pra casa.


(58)
parte de mim diz que isso é um sinal
eu não acredito em sinais
mas acredito que se você procurar um,
sempre vai achar
eu acredito em acasos - seriam sinais disfarçados?
eu to mesmo procurando algo que me diga pra voltar pra casa porque é onde tudo sempre fica mais seguro
minha zona de conforto agora me salvaria
[do caos
acasos
causais
casuais
é questão de ordem
de palavras]
"i don't want to be somebody's crush" - a sam diz pro charlie
eu to no meio do caminho querendo chegar em algum lugar



(57)
realidades.
desiguais.
pontos de vista. 
opostos.
perspectivas. 
diferentes.
olhe para fora do trem.
bolha.
abra os olhos.



(54)
as vezes permaneço em silêncio sem explicação, gosto de ficar no meu interior; lugar pouco habitado e que conheço bem.
[metade de mim é timidez e a outra metade também]



(53)
8 lições de 2018
1. pessoas vão embora, [in]felizmente.
2. os piores dias também acabam, e, por mais que pareçam passar mais devagar, eles têm exatamente as mesmas 24 horas que os melhores dias.
3. alguns medos só existem na minha cabeça.
4. uma das melhores coisas que eu posso fazer por mim mesma é me dedicar a atividades que me fazem bem.

5. tudo bem ter alguns dias de autoestima baixa se estes forem mais raros do que aqueles de boa autoestima.
6. não tem nada de errado em pedir ajuda.
7. é saudável me afastar de pessoas tóxicas e ao mesmo tempo perdoa-las.

8. o autoconhecimento é o caminho para que eu não seja tão dura comigo mesma.



(52)
Definição da palavra “vidro” no dicionário: corpo sólido, transparente, duro e frágil.
É possível ser sólido e ser frágil. A solidez é uma forma de proteção que, eventualmente, se quebra.


(49)
atirou-se em meio à confusão
de sentimentos, queda livre
o baque foi grande
nunca mais voltou



(48)
me conheci e me chutei
para fora de mim mesma
expus a descoberta


(47)
quis te observar partir meu coração sorri de alivio livrei-me me li com calma
— poesia continua


(46)
descrevi seu nome
foi tão raso
afundei
num mar de decepção


(45)
olhe a arte de frente
encare-a
assim você saberá o que ela quer te dizer
(seja qual for o tipo de arte)

(44)
deixou a cidade
com mochila nas costas
e sabedoria debaixo do braço

(43)

cansei de falar sobre pessoas que me machucaram. cansar não é a palavra certa. estou curada; curada de falsos amores. agora consigo me amar por inteira. e o melhor… sem precisar pisar em outrem. eu não alimento aquilo que não posso oferecer, eu me importo com o próximo, e mais, comigo mesma. pois inflar o próprio ego só te fará explodir. e não será de amor.

(6)
as palavras não saem como planejei
o caos instala-se
aqui dentro, registro
não me traduzir
permaneço mistério

(42)
quando te vejo
pego tudo o que é meu
jogo ao chão e me refaço
reencontro meus medos

minhas dores
meus desejos
respiro fundo
o que é preciso para você me abraçar?

eu senti seu sorriso
olhei seu sotaque
ouvi suas mãos nas minhas

eu não quero me machucar novamente
encaixe meus pedaços num tom tão sério
que eu vou rir de alívio sem me perguntar
se vale a pena me reconstruir


(40)
sempre fui a pessoa que espera
e deixa o acaso acontecer […]
espontaneidade versus expectativa

já dizia o Taoísmo*
não fazer nada também é fazer
esvazie-se e seja natural

* “O Taoísmo chama de não-ação uma ação sem intenção, uma ação não intencional. É uma ação que não pressupõem intenção, mas, nem por isso, não representa o não agir. Ou seja, significa realizar as coisas com naturalidade, sem excesso de predeterminação, sem especulação. Assim, sem preconceitos, naturalmente tudo será feito.”


(37)
depois de você eu me amei mais
não te amei mais
me amei por inteira

quando me libertei do seu falso amor
enxerguei todo o meu próprio e quis mergulhar
na imensidão do eu que não me conhecia

precisei de alguém que não me amou inteira
pra finalmente conhecer a minha parte mais bonita
me encontrei quando parei de procurar em você
aquilo que estava em mim o tempo todo

[sem você sigo completa]


(34)
entro pela sala de estar
tu crua no sofá
me faz esquecer os demônios
habitantes aqui

expostas
escancaradas
mulheres
permanecemos ali

[sinto-me casa ainda pouco mobiliada]

(33)
quis ser toda tua
antes de ser, eu
inteiramente minha


(32)
eu acabo com o que é nosso e tu não hesita
eu entrego os pontos e tu aceita de mãos abertas
aceita e ainda assina embaixo

é um vazio de perguntas e contestações
[como quem já esperava]
ponto final

(31)
eu sei que aquele sábado frio nunca vai voltar
que o primeiro sorriso
a primeira troca de olhares
ficaram perdidos no passado

por que amamos instantes?
por que amamos aquilo que não é eterno?

eu não me acostumei a deixar pra lá
nem a esperar suas respostas
que eu sei que não chegarão
eu sei que não vai acontecer

esperar também parece eterno
talvez seja
eu não quero amar



(28)
penso, processo
respiro fundo
penso, processo
converso
penso, processo
pergunto
você me abraça
abraço forte e duradouro
o tempo, abstrato e doloroso
tento adivinhar seus pensamento
sem sucesso
sua voz pausada traz uma resposta
registro sem entende-la
“Tudo bem”
seus olhos penosos me atravessam
finalmente, compreendo
“Eu entendo”
emerge o desolamento


(27)
Eu me perco olhando ao redor, para a imensidão que o mundo oferece; e mesmo assim, lembro de olhar e guardar coisas que são mutáveis e passageiras em você e que eu poderia perder. Não seria péssimo esquecer a cara séria que fazes quando te irrito? Ou não lembrar o modo que sorri quando pergunto o que houve e você faz menção em me morder? Eu não desperdiçaria a sua cara de “não acredito que você não tá vendo eu te zoar”. Mas eu vi e guardei - no sentido mais singelo que Antonio Cicero deu a palavra: admirei-a, fiz vigília. 

(26)
devaneio sem vírgulas
eu faço sombra nessa sua pele quase transparente seja por 5 minutos ou 5 horas adoro quando você dorme fazendo do meu braço travesseiro. tem feito tanto sol.



(25)
Comunicação não é meu forte, porém ao conhecer a literatura e me encontrar na escrita consigo me relacionar com outros e principalmente comigo mesma. Aliás, mais que um encontro, a escrita é uma descoberta. Através dela tento expor meus sentimentos, analisá-los de um ponto de vista externo e, assim, compreendê-los.


(23)
Quando te deixo escorregar na ponta do lápis e descrevo meus sentimentos mais bonitos mesmo que em minha garganta não haja palavras que definam o que eu vejo quando te olho, a sua curva mais discreta, a sua marca mais profunda.

(22)
minhas poesias são verdadeiras
tanto quanto minhas intenções
sinceras, tanto quanto preciso 
que sejas com tuas palavras

(3)
deitada no colchão, sala de estar
percebo: o único meio de não pensar em nada é pensar na escrita
contradição, meio difícil
e o que era para ser pensado, foi esquecido
no meio
no caos
das palavras


(21)
sua boca tem formas
eu perco o ar
haja suspiros
seguidos de sorrisos (meus)
para decidir o que é melhor
olhar ou te beijar


(20)
Foco é uma palavra engraçada para quem se tem muito

(19)
tiro pó enquanto me visitas
sempre houve tanta bagunça
por aqui dentro


(18)
me deixa escolher
quais palavras usar
para lembrar-te
de nós


(17)
eu queria escrever sobre nós
mas você parece esquecer
o tempo perde-se na
imensidão que há em um dia


(16)
Em museus existe aqueles que olham e aqueles que veem. Acho que na vida é assim. A arte clama atenção mas nem todos vem.


(15)
você diz
não sinto mais
bem tu
repleta de emoções

(14)
não se preocupe em me chamar
vivi tanto tempo com minha solidão
se você tem a sua, eu sei
ela reclama atenção

(13)
e para quem a curiosidade nunca tocou
você toca bastante
nesse sentido também, mas pense bem…

sou aquela que gosta do estável
enquanto tua diferença bagunça
o estático que era meu ser


(12)
parece que a saudade
não é consequência do tempo
mas, sim, da intensidade


(11)
aprenda a ser “para” alguém
sem deixar de ser quem és
transforme-se, renove-se
seja inteira

o outro não completa, acrescenta
e faz florir jardim novo
em terra firme


(10)
cavo buracos tão profundos
perco-me em meu interior


(9)
você diz que está tudo bem
mas seus olhos sorriem
de outra forma



(7)
sou um mar
de sentimentos
sinto muito
pouco verbalizo 



(5)
o frio chegou
com ele, você
e a sorte,
ah! a sorte!
esta pegou carona


(4)
acabei tatuando
teu rosto
em meus olhos
e seus detalhes
tornaram-se
poesia


(2)
sou [por tanto tempo] solitária
procuro alguém
a me visitar
em casa
em mim
diariamente

(8)
tento completar o que falta
no meu coração
você pareceu funcionar
até eu me encontrar