eu me lembro de quando deixei você roer a minha sanidade em nome do amor
você me machucava e eu colocava o nome daquilo de amor
estava tão longe de ser...
éramos afeto, apenas
eu te romantizei demais
afinal, você só tinha cuidado em tocar a carcaça
porque de resto, você nem notou
nunca tocou minhas entranhas
nunca me leu de verdade
só achou a capa bonita, me colocou na estante
como quem coleciona obras literárias sem nem ler o prefácio
e hoje me olho e vejo o quanto fui ingênua
fui eu que senti, em cada toque;
o amor estava em mim
entendi a efemeridade que você me proporcionava
eu achava que era suficiente
é, nunca fui boa nessa coisa de insistir
sempre me achei incapaz de merecer qualquer coisa
[principalmente amor]
e você aparece e volta quando acha que é conveniente
mas o amor não é assim
e finalmente eu entendi que o amor nunca se foi
ele sou eu
(61)
você não ignora o que pensas
você não ignora como ages.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo)
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso
porque não encontrava um título para os seus poemas.
Um título que harmonizasse os seus conflitos.
Até que apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)
As antíteses congraçam.
(120)
amar é cair aos pedaços e ressurgirsem medo de ser ou estar
(119)
as flores crescem com a sua presença
o sol não é mais o mesmo desde que você chegou
nem a escrita ou a escritora
o poema não aparece porque é de tristeza que o poeta vive
aquela música que era triste se regravou
a estação fria, amenizou
se for para falar de vida
eternidade
(113)
sofrer por amor é voltar aos poemas nunca vividos
(112)
ontem eu queria te tirar da cama
e você só sabia dançar por cima das roupas
deitada, rolando, trocando as palavras
me coloquei na sua posição para garantir um olhar
desvios feitos em pequenos segundos
a timidez me mostrou
e enquanto eu te abraçava para te segurar
seu braço rodou no meu pescoço e caiu
a cama segurou o que era importante
cuidado e leveza nos aguentou
(110)
escrevo quando estou triste
triste não estou
estou vivendo um turbilhão de sensações
que deveriam ter seu nome
sua cara, sua voz, sua silhueta
seu corpo, seu cheiro, seu sorriso
seus lábios nos meus
sem perceber, você chegou
e agora?
cartas de amor
(107)
seus olhos invadem meu corpo
vejo, não sinto a timidez
avanço no desejo
atua na indiferença
apago o que sou
sem tempo de voltar
(106)
madrugada passada
músicas antigas vieram me assombrar
reconectar nostalgias
sensações adormecidas
coloquei o medo como capa da playlist
e no repeat, ele toca
sem previsão para acabar
(105)
fazem dias que estou tentando ser alguém
imobilizada de corpo e alma
voltei ao passado, doze anos atrás
tenho medo de me reconhecer
naquela antiga versão
outra vida, outros tempos, outro eu
por um mês inteiro, viajei no tempo
paralisei no espaço
estou tentando voltar ao presente
até agora sem sucesso
permaneço no passado
(103)
eu criei vários poemas mas nenhum é forte o suficiente para ultrapassar a poesia que você cria em mim
saber transmitir é diferente de sentir
eu não sinto como antes, sinto mais, sinto muito
a transformação, a mudança, a andança, a vantagem
você corre quilômetros à minha frente
meu sentimento atravessa algumas dimensões do seu ser
quando acho que estou chegando perto, é apenas corpo
de alma eu já te alcancei desde aquele dia que você não lembra
talvez agora, com milhares de pés entre nós, nos encontremos nas vontades, sonhos ou viagens
se de alma, corpo, pensamento, ainda não sei
em todos os sentidos, longe do destino
te encontro e amo.
(87)
detalhes: tudo o que acontece quando estás desprevenido
a mordida de um pernilongo
uma chuva passageira
a quebra de uma xícara
o presente sem embrulho
a campainha às quartas-feiras
uma carta de amor
o beijo de bom dia
a rua esburacada
a vida após a morte
(86)
Semana passada estava eu assistindo Glee (sim, a série musical), um episódio inteiramente com repertório do Billy Joel. Ele tem uma música que fala sobre honestidade e como é difícil encontra-la. "Honestidade é uma palavra tão solitária, honestidade é dificilmente ouvida." É isso que ele escreve. No amor, se você procura carinho, um rosto bonito ou alguém que te faça promessas, facilmente terá. No entanto, se procurar verdade e honestidade, talvez se sinta cego ou incapaz, pois são difíceis de encontrar. A solidão está além da palavra. Normalmente os caminhos difíceis são os mais solitários. Mas, segundo Bukowski, existem coisas piores do que estar sozinho, e uma delas é descobrir tarde demais.
(78)
eu sempre dizia que estava fora das coisas principalmente porque se eu entrasse, se me deixassem entrar nos lugares e grupos e coisas, ia ser doloroso sair. sair por qualquer motivo. seja porque não me adaptei ou porque não se adaptaram a mim. mas eu aprendi o quão é bom fazer parte e se sentir aceita, aprendi que fazer parte faz parte de mim. mesmo assim eu ainda tenho medo. então eu digo que tô longe, mas na verdade tô bem perto.
ando distante da escrita
(55)
quando vocês leem alguém vocês realmente se despem de si para enxergar o outro?
eu vejo tanta gente romantizando textos em que a pessoa só sabia lidar com aquela dor escrevendo e muitas vezes não é bonito. dói escrever. é exorcizar tudo que aperta o peito e eternizar aquela dor ali. tenham respeito com a escrita alheia. é como se a gente tirasse a roupa, com todas as inseguranças e traumas ali nas palavras.
olhem com cuidado o espaço do outro.
é triste perceber que o amor
por si só
ele não basta
precisa-se [querer a sintonia]
estar no mesmo instante
mais uma vez
mais uma vez
é temporal
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