(63)
eu me lembro de quando deixei você roer a minha sanidade em nome do amor
você me machucava e eu colocava o nome daquilo de amor 
estava tão longe de ser...
éramos afeto, apenas 


eu te romantizei demais 
afinal, você só tinha cuidado em tocar a carcaça 
porque de resto, você nem notou


nunca tocou minhas entranhas
nunca me leu de verdade
só achou a capa bonita, me colocou na estante
como quem coleciona obras literárias sem nem ler o prefácio

e hoje me olho e vejo o quanto fui ingênua 
fui eu que senti, em cada toque;
o amor estava em mim 

entendi a efemeridade que você me proporcionava
eu achava que era suficiente

é, nunca fui boa nessa coisa de insistir
sempre me achei incapaz de merecer qualquer coisa
[principalmente amor]


e você aparece e volta quando acha que é conveniente
mas o amor não é assim
e finalmente eu entendi que o amor nunca se foi

ele sou eu

(61)

SOBRE PENSAR, SENTIR E AGIR

Alguns anos atrás, um acidente – sem mortes ou danos maiores – me fez refletir sobre o verbo agir. O que é agir? Quais as consequências dos nossos atos sobre nós mesmos e sobre os outros a nossa volta? Cheguei a uma conclusão parcial. Em termos bem simples, agir é a manifestação do que pensamos e do que sentimos, ou seja, a mistura da nossa razão e da nossa emoção. Assim, quando dominamos nossos pensamentos e nossos sentimentos agimos de forma equilibrada. Uso aqui o significado de dominar não no sentido de conquistar, domar... como se doma um animal. Pensar e sentir são verbos de nascença, você não consegue conquistar o que é seu por essência. A coisa conquistada é aquela que não nos pertence, que por algum motivo de ignorância - ou não - achamos que tem de ser seu, ou meu, ou nosso. O animal é domado (domesticado) e sobre ele exercemos a força, seja ela física, psicologia, emocional... O significado de dominar que proponho aqui é o de entendimento. Dominar através do conhecimento.
E o que é mais valioso do que o autoconhecimento? Quando entendemos, de fato, o que sentimos e pensamos, aceitamos; porque aceitar é aprender a reconhecer a nossa própria força, e consequentemente, nossa própria fraqueza, nossos próprios limites. Quando você reconhece que não pode fazer nada sobre determinado assunto, que não tem controle sobre alguma coisa, você aceita. Aceitar nada mais é do que abraçar a sua vulnerabilidade.  Voltemos à ação equilibrada. Esta é coerente ao que sentes e ao que pensas, é a balança libriana, o meio termo. Ações equilibradas geram consequências equilibradas e o universo, ultimamente, grita pelo equilíbrio.
Então posso dizer assim:

Na ação equilibrada você não ignora o que sentes

você não ignora o que pensas
você não ignora como ages.



Não ignorar é iluminar-se, sair do escuro, gerar consciência. Se soubermos por que pensamos a, porque sentimos b e porque agimos c, criamos responsabilidade pelos nossos atos. Responsabilidade emocional. O que é tomar consciência se não conhecer aquilo que você decidiu não ignorar? Mais uma vez esbarramos na importância do autoconhecimento. Não ignorar é aprender sobre responsabilidade. Sem responsabilidade machucamos aos outros e a nós mesmos. Às vezes a verdade pode ser pior do que Friends dublado, mas, o que vai nos fazer progredir é a nossa capacidade de se importar ou não com o que o outro sente. Se a gente alimenta aquilo que não quer que cresça – seja com água, carinho ou ódio – logo percebemos o valor que temos. Não digo aqui que atingir o equilíbrio é coisa fácil, a gente fala – e principalmente escreve – sobre aquilo que queremos entender ou dominar; e em questão de paradoxos (pensar e sentir) e antíteses (razão e emoção), quem escreve finge bem. Termino com um verso do Livro sobre nada, de Manuel de Barros, pra quem não sabe entendermos melhor:

Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo)

(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso 

porque não encontrava um título para os seus poemas.
Um título que harmonizasse os seus conflitos.
Até que 
apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)

As antíteses congraçam.

(120)

amar é cair aos pedaços e ressurgir
sem medo de ser ou estar

(119) 
as flores crescem com a sua presença
o sol não é mais o mesmo desde que você chegou
nem a escrita ou a escritora
o poema não aparece porque é de tristeza que o poeta vive

aquela música que era triste se regravou
a estação fria, amenizou
se for para falar de vida

eternidade


(113)
sofrer por amor é voltar aos poemas nunca vividos

(112)
ontem eu queria te tirar da cama
e você só sabia dançar por cima das roupas
deitada, rolando, trocando as palavras

me coloquei na sua posição para garantir um olhar
desvios feitos em pequenos segundos
a timidez me mostrou

e enquanto eu te abraçava para te segurar
seu braço rodou no meu pescoço e caiu

a cama segurou o que era importante
cuidado e leveza nos aguentou

(110)
escrevo quando estou triste
triste não estou
estou vivendo um turbilhão de sensações
que deveriam ter seu nome

sua cara, sua voz, sua silhueta
seu corpo, seu cheiro, seu sorriso
seus lábios nos meus

sem perceber, você chegou
e agora?
cartas de amor

(107)
seus olhos invadem meu corpo
vejo, não sinto a timidez
avanço no desejo
atua na indiferença
apago o que sou
sem tempo de voltar

(106)
madrugada passada
músicas antigas vieram me assombrar
reconectar nostalgias
sensações adormecidas

coloquei o medo como capa da playlist
e no repeat, ele toca
sem previsão para acabar

(105)
fazem dias que estou tentando ser alguém
 imobilizada de corpo e alma
voltei ao passado, doze anos atrás
tenho medo de me reconhecer
naquela antiga versão

outra vida, outros tempos, outro eu
por um mês inteiro, viajei no tempo
paralisei no espaço

estou tentando voltar ao presente
até agora sem sucesso
permaneço no passado

(103)
eu criei vários poemas mas nenhum é forte o suficiente para ultrapassar a poesia que você cria em mim 
saber transmitir é diferente de sentir
eu não sinto como antes, sinto mais, sinto muito

a transformação, a mudança, a andança, a vantagem
você corre quilômetros à minha frente
meu sentimento atravessa algumas dimensões do seu ser

quando acho que estou chegando perto, é apenas corpo
de alma eu já te alcancei desde aquele dia que você não lembra

talvez agora, com milhares de pés entre nós, nos encontremos nas vontades, sonhos ou viagens
se de alma, corpo, pensamento, ainda não sei
em todos os sentidos, longe do destino 

te encontro e amo.

(87)
detalhes: tudo o que acontece quando estás desprevenido

a mordida de um pernilongo
uma chuva passageira
a quebra de uma xícara
o presente sem embrulho
a campainha às quartas-feiras
uma carta de amor
o beijo de bom dia
a rua esburacada
a vida após a morte

(86)
Semana passada estava eu assistindo Glee (sim, a série musical), um episódio inteiramente com repertório do Billy Joel. Ele tem uma música que fala sobre honestidade e como é difícil encontra-la. "Honestidade é uma palavra tão solitária, honestidade é dificilmente ouvida." É isso que ele escreve. No amor, se você procura carinho, um rosto bonito ou alguém que te faça promessas, facilmente terá. No entanto, se procurar verdade e honestidade, talvez se sinta cego ou incapaz, pois são difíceis de encontrar. A solidão está além da palavra. Normalmente os caminhos difíceis são os mais solitários. Mas, segundo Bukowski, existem coisas piores do que estar sozinho, e uma delas é descobrir tarde demais.

(78)
eu sempre dizia que estava fora das coisas principalmente porque se eu entrasse, se me deixassem entrar nos lugares e grupos e coisas, ia ser doloroso sair. sair por qualquer motivo. seja porque não me adaptei ou porque não se adaptaram a mim. mas eu aprendi o quão é bom fazer parte e se sentir aceita, aprendi que fazer parte faz parte de mim. mesmo assim eu ainda tenho medo. então eu digo que tô longe, mas na verdade tô bem perto.

(72)
ando distante da escrita
quase rastejando até ela
as vezes, me fecho dentro 
de mim, não sei a razão

quando parece que estou mais perdida
me encontro aqui, bem perto
quieta para invisível permanecer

e quem sabe, um dia, chegar 
nos versos internos que não

decifrados, existem em mim


(55)
quando vocês leem alguém vocês realmente se despem de si para enxergar o outro? 
eu vejo tanta gente romantizando textos em que a pessoa só sabia lidar com aquela dor escrevendo e muitas vezes não é bonito. dói escrever. é exorcizar tudo que aperta o peito e eternizar aquela dor ali. tenham respeito com a escrita alheia. é como se a gente tirasse a roupa, com todas as inseguranças e traumas ali nas palavras.
olhem com cuidado o espaço do outro.


(30)
encontrei meu limite
é triste perceber que o amor
por si só
ele não basta
precisa-se [querer a sintonia]
estar no mesmo instante

o tempo torna-se empecilho
mais uma vez
mais uma vez
é temporal

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