(114)
eu tinha tudo sobre controle quando você
apareceu e remexeu minhas certezas
elas que com uma perna só se equilibravam
como pássaros em fios elétricos procurando liberdade
o engraçado é que você trouxe outras conclusões
acompanhadas de dúvidas, se juntaram as existentes
ontem quando senti sua falta em um dia
monótono e delicioso, entendi que era na mudança o nosso lugar
e depois de alguns meses contornando as
incertezas, trouxe-as para perto e me envolvi
com um cobertor imenso e macio do agora
(104)
hoje foi um dia perdido em mim
relembrei como é estar
sem caminho
trouxe o acaso
me perdi no tempo e no espaço
do corpo
relógio carrego o de pulso
e sem dizer a ti qual era o problema
me substitui
conheci outra versão de alguém que não sou
e fui
(98)
eu te dei tudo o que eu tinha
do coração as intimidades
nada mudou ou sucedeu
esperei quase dois anos pela reciprocidade
que não chegou, só bateu à porta
e bem poderia ser engano
você queria metade do que eu desejava
eu te dei tudo o que tinha
aonde encontrar o tanto que eu quero?
como receber sem perder?
nossos mundos diferentes se cruzaram
era caminho, direção e, de repente, um desvio
descobri: o amor é labirinto que não se basta
sem mágoa ou raiva, eu sigo
reconstruir, começar do zero
com a bagagem leve
os aprendizados nunca pesam
(97)
ontem escrevi para você sem previsão
recebi dualidades
paradoxos sentimentais
não quero nós novamente
mas existem sentimentos que mesmo modificados
permanecem; a sensação, o amortecimento
a prótese, o molde
nada disso será reutilizado
Como se fossem exposições em museus
revisitá-las não as tornam minhas
(92)
olhares que pesam, inquietam
tornaram as horas mais lentas
e a introversão acentuada
(com pontos de exclamação)
fico dentro de mim
sem querer sair
(89)
quando você percebe que entrega mais do que recebe
a conta não bate, simples matemática
afundas em alto mar, antes fosse para se afogar
boia, boia, sem parar
enruga até mofar
o que era seu, se vai, fica para trás
não dá pé, não há ar, não se vive mais
o amor é sentimento vasto
é estar em alto mar?
(68)
eu poderia falar isso: ah, não deu porque a gente é muito diferente. mas eu queria mesmo falar de como é sentar de frente pra você na mesa e ficar sentindo seus olhos passeando por mim até eu ficar tímida. queria dizer que sinto prazer. prazer em te olhar e te deixar sem graça, em ouvir você cantarolando quando animada, em perceber seus olhos revirarem depois de uma brincadeira minha, sem graça. prazer em saber que te afeto. em saber que você também não sai ilesa de tudo isso. eu te quero feliz e perto, mas não deu porque você não desceu do muro. e olha que esse muro nem era eu. porque eu também estava em cima, te chamando pra descer comigo e você insistiu em ficar. desci, pulei, a queda foi brusca. não achei que me sentiria tão sozinha rápido assim, só, novamente. aqui normalmente entra a poesia: você não quer porque não se permite. porque tem medo. porque se sabota. por que não confia mim. ou em si? não sei e não importa. eu te quero livre e saudável, ficar presa aí em cima é limitante, é enganoso. mas quando você me deixa lá embaixo esperando, e convida alguém pra subir e sentar contigo, com a desculpa de não saber as coisas que a gente é, alguma parte da minha empatia se quebra. foi lá debaixo que eu encontrei meu limite. você só sairia se eu quebrasse o muro. e eu não quero quebrar nada nem ninguém.
principalmente com as palavras
gaguejava ao falar, o calor subia (ainda sobe) pelo rosto
e não era de prazer
aprendi a ser cada vez mais quieta
sentimentos moldados em palavras não ditas
até conhecer a escrita, minha companheira mais fiel, sim
e as manias que criamos ao longo do tempo [...]
eu faço listas que registram momentos
escrevo em nota antes de digitar mensagens importantes
eu rascunho as palavras mais mansas para dizer
não gostei
não quero
não senti
eu transcrevi nosso primeiro diálogo porque, sim
é através da escrita que compreendo a realidade
e podem me chamar de lerda por instantaneamente
não compreender conversas ou discussões
escolher o silêncio
mas a real é que teu tempo corre em segundos, milésimos
o meu tempo é medido em palavras
eu sei o dia que eu disse que amo
eu sei as coisas que eu gosto em ti
eu sei o que me irrita
eu sei o que eu sou
eu sei, pois registro em palavras
muitas vezes não ditas
porém, eternizadas
eu tive medo quando te vi pela primeira vez no seu sofá
e ouvi sobre a sua confusão
foi como um flashback de filme norte-americano
um déjà-vu dos festivais de cinemas franceses
e pensei “de novo não”
achei que tivesse mastigado e engolido o medo, aí
eu vomitei bem no seu sofá, segundos antes de transparecer confiança
a qual, na verdade, havia escapado corpo à fora e dobrado a esquina da sua casa
como se você pudesse ouvir meu estomago gritar
[e você pode, ele fala tão alto]
eu não quero restos, nada pela metade
eu não quero gorfar os mesmos medos e traumas
novamente
eu já fui o lugar mais acolhedor
que a solidão achou para se alojar
onde os pensamentos se dissolviam
e sair de casa era uma batalha
agora,
mais calmo e tranquilo
quem chega, planta
alguns, colhem
estou sempre trocando minhas certezas
por uns versos e novas experiências
poemas feios os meus
poemas feios e agora incertos
o epílogo sequer existe
poesia não possui
possuir é coisa ruim
a gente pode é pertencer
se pertencer ou pertencer a gente nenhuma
um poema é como uma plantinha que se coloca no mundo. é uma vida, que ao longo do tempo cresce, floresce, te ajuda a respirar melhor, traz paz e conexão interior. por um mundo com mais plantinhas e poemas.
tenho uma queda pela literatura, fraqueza pelas palavras;
pelas conversas?
você não sabe, eu nem te conheço
estou tentando evitar
juro
cadê aquela frase pra me fazer ir embora?
cuidado e carinho
eu não vou me aproximar mais
eu já vou
não me manda esperar
esta me liberta, ao mesmo tempo que me arrasta para um caos interno
[...]
um copo de café e boa companhia
para escrever meus inversos
e guardar meus versos
numa troca de olhares
[aqueles que nos fazem ser poesia não nos resumem num papel qualquer]
não encontrou espaço em quem sou;
devo a você
por preencher grande parte de mim
— irmã
(118)
dizer que o céu está para peixes
que as estrelas mergulham na escuridão
antecipar a maré
viajar sozinha
correr o risco de abraçar a solidão
acolher a sensação
à vista, naus com til
navegar em abstenção
(115)
talvez o seu amor seja o mais
maduro até hoje
não tem a ver com idade
nem comparação
te amar é tão leve
simples, fácil
te amo sem pensar
duas vezes
desconfio da nossa relação
te coloco em teste sem querer
Não quero palavras atravessadas
nem gritos pela casa
eu prefiro atitudes tranquilas
sem te mostrar outro tom de voz
me questiono sobre o certo e o errado
o lado e o avesso
o nosso e o nada
e quando em silêncio
reviro a madrugada
sem você ao lado
não pago nem para ver
(29)
fez moradia aqui
faz duas décadas
eu cheguei primeiro
(em mim, em casa)
mas resido em você que é lar
— irmã
Gosto como seu coração sente, vivi
ResponderExcluirobrigada ;-;
ResponderExcluirbom demais saber <3